segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Tarado do Access

Este ano houve muita polêmica sobre a queda da exigência de diploma superior para a carreira de jornalista. Eu acho que exigir um diploma superior é exagero para a maior parte das profissões. Exceto para a Medicina, a Engenharia Civil, a Odontologia e talvez algumas poucas outras, não é realmente necessário passar anos numa universidade.

Eu não excluo a possibilidade de que muitas profissões sejam regulamentadas, mas isso não tem nenhuma relação com o ensino superior. Os jornalistas, por exemplo, poderiam muito bem ter um conselho que regulasse as questões trabalhistas e éticas e ao qual os interessados se associariam livremente (ou através de uma prova, como os advogados).

Eu não acho a polêmica toda tão interessante, exceto por um detalhe. Descobri que as pessoas não consideram a informática uma profissão séria e digna de um diploma. Eu mesmo defendo que o diploma não é essencial, mas se ele for julgado crítico para o jornalismo, não vejo por que não o seria para a informática.

E agora eu apresento um personagem deveras problemático: o tarado do Access. Eu já testemunhei em duas organizações e já ouvi descrito no testemunho de outras pessoas o personagem que vou analisar a seguir.

O tarado do Access geralmente é um contador, mas não necessariamente. Ele produz pequenos aplicativos em Access ou Excel, com boas doses de VB. VB clássico, claro. Esses aplicativos costumam ser realmente úteis e logo são adotados por um grande número de pessoas.

Chega o dia, invariavelmente, em que o aplicativo (ou seus dados) precisa ser integrado à infraestrutura de TI da empresa. Nesse ponto, entra a informática e descobre que nenhuma de suas preocupações diárias foi considerada: modelagem de dados, infraestrutura de servidores, suporte aos usuários, segurança, integração com outros aplicativos, etc. O tarado do Access, é claro, não pode ajudar, porque já está ocupado com a próxima criação e também porque não tem a menor idéia do que seja preciso fazer.

Uma aplicação que eu mesmo vi, tinha em cada tabela uma coluna chamada INUTIL. Era a chave primária e o autor da obra não sabia para que servia, então deu-lhe este lindo nome. Eu acho que qualquer coisa chamada "chave primária" deve ter alguma importância, mas o óbvio é relativo.

Se houvesse a exigência de curso superior (ou mesmo de certificação) para a informática, poderíamos acusar essas pessoas (algumas até bem intencionadas) de execer ilegalmente a profissão. Mas é um pouco pesado para o simples o uso do Access, acho. Afinal, podem surgir situações perfeitamente legítimas, como a do dono de um pequeno estabelecimento que necessite de uma aplicação simples e isolada do mundo.

As organizações sérias não enviam correspondência mimeografada, nem fazem contabilidade em cadernos escolares, mesmo que a lei não os obrigue a isso ou que isso tenha conseqüências sérias. O que as menos sérias não perceberam ainda, é que deixar a informática para amadores coloca em risco seus próprios futuros. E se os dados forem perdidos ou roubados? E se os dados simplesmente não forem confiáveis, porque não foram normalizados?

Em algumas organizações que levam a sério o trabalho da informática, sabem-se quantos watts uma determinada aplicação consome. Ou quanto pesam os servidores. Ou quantos minutos são precisos para recompor o banco de dados, se houver uma falha catastrófica. São casos extremos, mas apontam para a importância da informática na infraestrutura tecnológica de hoje.

Eu creio que, em parte, as pessoas não levam a informática a sério, porque pensam que a compreendem. Elas usam um computador, usam uma planilha e até sabem montar uma apresentação no Powerpoint. Não é tão difícil! E aqueles incompetentes da TI levam meses para escrever uma aplicação que o tarado do Access monta numa semana.

Com tudo isso, continuo achando que não é preciso ter um diploma para a Informática, assim como para a maior parte das profissões. As organizações que permitem que o tarado do Access sobreviva não são organizações sérias e isso provavelmente irá se manifestar em outros aspectos de seu funcionamento. Logo, exigir diploma para a informática não vai salvá-las de sua própria incompetência.

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