quarta-feira, 17 de março de 2010

Chutando a escada

Steve Jobs reclamou dos impostos no Brasil e disse que "a política maluca de taxação superalta do Brasil" impede que a Apple instale uma Apple Store aqui.

A verdade é que os impostos de importação são altos. Ele quer produzir baratinho na China e vender caro aqui. Se ele propusesse produzir os Macs aqui, ganharia até incentivos fiscais. Talvez ele não tenha pensado nessa hipótese.

Essa polêmica me fez lembrar do economista alemão Georg Friedrich List. Ele foi muito importante no século XIX, porque desenvolveu o Sistema Nacional (ou Escola Americana), que regeu a economia americana até a metade do século XX. Ele traçou os passos necessários para o desenvolvimento de uma nação, fazendo uma análise histórica.

O último passo é chutar a escada. Isto é, um país sobe uma escada, cada passo levando a um nível mais elevado de desenvolvimento econômico, e, quando estiver no topo, chuta a escada para que as outras nações não possam subir. Essa escada inclui proteger indústrias incipientes e ignorar a propriedade intelectual dos outros.

Quando chegaram ao topo, os países ricos subitamente descobriram que há um conjunto de regras que são tão maravilhosas que devem ser seguidas por todo o mundo. Entre 1960 e 1980, a taxa média de crescimento dos países pobres foi de 3%. Com a liberalização da economia mundial, ela caiu para 1,5%. Na década de 1980, o Consenso de Washington iria salvar o mundo.

Em 1820 o Reino Unido tinha um nível de renda semelhante ao da Índia de hoje, mas não tinha sufrágio universal (nem todos os homens podiam votar!), imposto de renda, lei de falências, um banco central, regulação do mercado financeiro, ou mesmo leis trabalhistas. Crianças trabalhavam 16 horas por dia em minas de carvão ou teares. Eu gostaria muito de ter uma máquina do tempo para voltar a 1820 e propor o Consenso de Washington ao parlamento britânico ou ao Congresso dos Estêites.

O presidente gringo Ulysses Grant (serviu entre 1869 e 1877) disse que "em 200 anos, quando os Estados Unidos tiverem obtido tudo o que puderem do protecionismo, eles também adotarão o livre comércio".

O Brasil tem uma política de taxar as importações por um motivo muito simples: a China e os Estados Unidos acabariam com nossa indústria. Não é possível que um país de 190 milhões de habitantes viva somente de vender soja e suco de laranja.

Mas tarifas não bastam e nosso país não tem investido o suficiente no nosso desenvolvimento tecnológico. Nossa escola é ruim e nossas universidades formam poucos engenheiros. Faltam cursos secundários técnicos. Nosso sistema de impostos é muito complicado.

Contudo, diminuir tarifas de importação para que o Steve Jobs possa ter o lucro que deseja, não é uma solução inteligente.

P.S. No ano passado, houve muito barulho sobre o IOF de 2% descontado do dinheiro estrangeiro que entrar no país. Pois, nos Estêites, há um imposto de 30% sobre os ganhos de capitais ou dividendos pagos a estrangeiros.

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