Não é incomum encontrar uma palavra num livro ou mesmo conversando com uma pessoa. Sempre encontro palavras interessantes com Saramago ou com pessoas de Caçapava do Sul, a qual, tenho certeza, merece o seu próprio dicionário, dado que essa cidade tem um vocabulário muito particular.
Tenho também certeza que existem lacunas de vocabulário que quase todo mundo compartilha, como os coletivos, assim como há vocabulários específicos de determinadas profissões, faixas etárias, ou grupos sociais.
Entretanto, há palavras que eu julgava universais e nos últimos tempos descobri, para minha grande surpresa, que uma em particular não o é: dúzia. Em três ocasiões nos últimos meses, deparei-me, sempre num balcão de padaria, com pessoas que não sabem do que se trata e não consigo encontrar uma explicação para este fenômeno recente.
Há ainda coisas que são vendidas às dúzias: ovos e caixas de leite, por exemplo. Portanto, sei que ainda é uma palavra relevante. Uma grosa, por outro lado, eu entendo que pouca gente conheça a medida. Almude tampouco. O conjunto de pessoas que conhece grosa e almude posso delinear como o dos netos de alfaiates portugueses. Dada a escassez, tanto de pessoas, como de motivos para usar ambas as palavras, elas vão ficar acumulando pó na minha cabeça.
A dúzia parecia-me uma parte fundamental da língua, como a palavra sim, a qual, estranhamente, há língua que não possua. Pode-se viver sem o sim? Pode-se. Sem o não, tenho dúvidas. Pode-se também viver sem a dúzia; o doze faz bem o papel, embora pareça-me mais natural comprar uma dúzia de ovos que comprar doze ovos.
Sinto que, se tirássemos o sim, as conversas ficariam mais ricas, ao passo que, se tirássemos dúzia, perderíamos um floreio latino que embeleza nossa língua.
Vou insistir com a palavra, mas doravante com ímpeto didático adicional.

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