segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Conto da Aia Brasileira

Maria nasceu numa casinha pequena, longe da estrada. A casinha não tinha nem luz nem água corrente. O ano era 1954, logo depois da morte de Getúlio, o pai dos pobres, e a localidade era o interior de Caçapava do Sul. Ela não foi a primeira Maria a nascer ali, mas foi a primeira que vingou.

Quando completou dois anos, ou mais ou menos isso, dado que ninguém estava contando, o pai de Maria decidiu levá-la à cidade para registrá-la. Ouviu dizer que era importante. Foi até lá sem refletir sobre o nome. Quando o escrivão indagou, teve que pensar um pouco e, finalmente, concluiu que "coloca Maria aí" era o que precisava ser dito.

Aos 6 anos, os pais de Maria decidiram levá-la à sede da fazenda, na esperança de que lá pudesse viver um pouco melhor e, quem sabe, aprender a ler. A esposa do Capitão não precisou pensar muito: era mirradinha e não sabia fazer muito, mas não custava nada e ela poderia adestrar a negrinha que logo ela seria útil. Ela não sabia mesmo fazer muita coisa já que a casinha em que morara até então era desprovida de meios. Sabia varrer, sabia buscar água, sabia fazer arroz, ou assar um lagarto com lenha.

Ela cresceu num quarto cheio de ferramentas que era muito frio no inverno e muito quente no verão. Trabalhava todos os dias e descansava um pouco quando a família ia à cidade. Melhor alimentada, ela foi crescendo e ganhando corpo. Tornou-se uma adolescente vistosa: pernas firmes e uma bunda que os homens não conseguiam ignorar. Pedrinho e Fernando, os filhos do Capitão, certamente não a ignoraram. Ela já era moça e os filhos do Capitão eram os únicos machos que não cheiravam mal e não eram muito mais velhos que ela; os únicos adolescentes que ela conhecia no mundo.

Primeiro foi o Pedrinho. Numa noite quente, ele apareceu no quartinho e a convidou para um banho no açude. Pedrinho era bonito e ela não pensou muito no que estava fazendo; precisava de um pouco de afeto. Semanas mais tarde, foi o Fernando. Talvez o Pedrinho o tenha incentivado.

É impossível calcular se foi sorte ou azar ela não ter emprenhado, porque a vida de Maria era como a natureza: ela simplesmente é. A mulher do Capitão notou que algo acontecia e reparou como os homens esticavam os olhos em direção ao traseiro de Maria.

Um dia um amigo do Capitão veio de Santa Maria trocar um dedo de prosa e assar um churrasco. O amigo, Doutor Antônio, professor da Universidade, era viúvo e ele mesmo já não tinha muita saúde, porque bebia e fumava muito. Antônio gostou muito da negrinha da casa. A mulher do Capitão percebeu uma saída e sugeriu ao amigo levar a moça: se der um jeito no cabelo, fica até bonitinha.

Doutor Antônio propôs um negócio. Maria casaria com ele e viria morar em Santa Maria. Em troca, ela poderia estudar e, quando o Doutor morresse, ela herdaria alguma coisa e poderia seguir sua vida. Talvez ela tivesse que cuidar dele por uns 20 anos e logo estaria livre. A mulher do Capitão, por outro lado, deixou claro que ela não poderia mais ficar na fazenda. A vida decidiu por ela mais uma vez.

Maria estudou um pouco em Santa Maria. Ela tinha dificuldade e quando chegou à quinta série o Doutor achou que bastava para cuidar da casa. Nos anos 1970, uma mulher precisava de autorização do marido para abrir crediário, para ter um emprego, os passaportes eram familiares e o portador era o chefe da família, e uma mulher não podia pernoitar sozinha num hotel. Maria não ficou sabendo de nada disso, porque o Doutor viajava sozinho. Talvez ele tivesse vergonha da esposa.

Essas limitações todas eram só para as mulheres ricas, as quais ela invejava um pouco. As da novela pareciam livres, mas só existiam nos sonhos.

Muito antes de completarem 20 anos de casados, o Doutor ficou seriamente doente e faleceu. Maria cuidou do Doutor nos últimos e terríveis dias; sentiu pena do velho que estava sofrendo como um cão. Os filhos do Doutor vieram lá de São Paulo e organizaram tudo. Sem saber como tomar posse do que lhe tinha sido prometido, ela acabou com um pouco de dinheiro que os filhos ofereceram para não a deixarem completamente desprovida e também para incentivá-la a sair do apartamento o quanto antes.

Ela passou a trabalhar como doméstica, morando em quartinhos, às vezes quentes, às vezes frios, sempre sem ventilação. Pelo menos na fazenda ela pudera dar uma volta pelo campo e tomara banho de açude.

Nenhum comentário:

Postar um comentário