sábado, 28 de abril de 2012

Mobilidade cerceada

O tempo que levo para voltar do trabalho para casa tem me feito pensar sobre como é estúpido o sistema de transporte que estamos fomentando. Frequentemente, levo mais de 1h para percorrer os cerca de 9km entre meu trabalho e minha casa.

O maior problema é a quantidade de automóveis e o fato de que a maioria leva uma ou duas pessoas. Além disso, os autos estão ficando cada vez maiores. É irracional utilizar um veículo de uma tonelada e meia para carregar uma pessoa com menos de 100kg, mas esses gigantes estão se disseminando. Alguns precisam de duas vagas nos estacionamentos.

Como o país está numa fase de crescimento rápido e as pessoas encontram-se com dinheiro e a possibilidade de comprar carros enormes pela primeira vez, antecipo que vamos ter que aturar esse deslumbramento por um bom tempo ainda. Além disso, esse comportamento infantil adentra o reino do antissocial, porque os proprietários, além de não quererem dividir as ruas com ciclistas, pleiteiam para si cada vez mais investimentos de infraestrutura. Ciclovias são inúteis, reclamam, mas viadutos multi-milionários são indispensáveis.

Eu reservo-me o luxo de usar táxi-lotação, que são um pouco mais caros. Raramente uso ônibus, porque andam lotados e muitos não têm ar-condicionado. Penso que eles não melhoram, porque são vistos como negócio, não como utilidade pública. É muito fácil calcular despesas e lucros, ao passo que bem-estar ainda não sabemos quantificar.

Conferindo o orçamento da prefeitura de Porto Alegre em 2011, vejo que há milhões dotados para obras viárias: duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Filho (R$32 milhões); duplicação da Avenida Voluntários da Pátria (R$9 milhões); prolongamento da Avenida Severo Dullius (R$8 milhões); implantação da Avenida Tronco (R$21 milhões); etc. Quando procuro por obras para pessoas, encontro pouco: construção de calçadão na Vila Assunção (R$245 mil dotados, mas nada pago); mobilidade e acessabilidade no centro (R$790 mil dotados, mas apenas R$290 mil pagos); obras viárias na área socioambiental (R$800 mil dotados, nada pago).

Esse excesso de ênfase no automóvel está tornando a vida cada vez mais complicada para todos. Estamos num círculo vicioso em que o transporte coletivo ruim incentiva o uso do carro e isso torna a mobilidade urbana ainda pior. Mas meus compatriotas estão ainda tão enamorados de seus brinquedinhos caros que não enxergam o efeito negativo que eles têm sobre suas vidas. Logo, o assunto que nos toma horas todos os dias não existe no debate político.

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