sábado, 22 de outubro de 2011

Terceira volta

Educação, disse Einstein, é o que nos resta após termos esquecido tudo o que nos ensinaram na escola. Tendo me formado há mais anos do que eu gostaria de mencionar, posso agora seguramente estimar o que terá sobrado das cadeiras que cursei no Instituto de Informática da UFRGS.

Há muito tempo eu tinha a certeza de que algo faltava no curso e após ler um texto de Richard Feynman sobre a educação no Brasil, pude perceber claramente que era a realidade. Alguns exemplos estão claros na minha memória. Em primeiro lugar, a insistência no modelo OSI e nos detalhes da sintaxe do ASN.1 nas aulas de redes. Em segundo, as aulas de autômatos sem nenhuma menção às expressões regulares (lendo o Mastering Regular Expressions, finalmente compreendi o papel de NFAs e DFAs). Em terceiro, o professor de Sistemas Operacionais que nos propôs escrever um montador antes mesmo de mencionar o Lex e o Yacc (e no ano anterior à cadeira de compiladores). Nem preciso entrar no mérito de cadeiras como "Computador e Sociedade".

Obviamente, o propósito do curso não era ensinar informática. No entanto, algum mérito deve ter tido o curso, porque eu dificilmente o trocaria por outro no estado (não descarto a possibilidade de que seja apenas empáfia acadêmica). E o que restou após quatro anos de matérias e tarefas abstratas e aparentemente sem benefícios práticos foi a habilidade de enfrentar problemas novos e em áreas que não domino. Normalmente, a isso dar-se-ia o nome técnico de picaretagem, mas garanto que os egressos da UFRGS o fazem com muita propriedade e com as devidas referências bibliográficas.

Mesmo assim, acho que o currículo deveria ser reformado radicalmente. É preciso tirar a ilusão de que as matérias têm algum valor prático. Nos meus anos de faculdade, brincava-se sobre a cadeira de Corte e Costura para Processamento de Dados. Ela não serve, porque tem valor prático.

Acho que o Instituto de Informática precisa de cadeiras verdadeiramente abstratas, inúteis e arbitrariamente complicadas. Proponho estudos como Lacumetria Antropométrica (medição de lagos usando partes do corpo humano como unidade). Ou então Filatelia Computacional (estudo de selos com referências à informática). Finalmente, a minha favorita, a Kleroterionologia (estudo dos aparelhos usados pelos gregos antigos em suas eleições). Tenho certeza que a SBC compreenderá!

2 comentários:

Anônimo disse...

Não era para escancarar, mas a UFRGS toda é bem assim.
Faltam muitos pedaços que conectam o conhecimento importado de fora com a sua produção e a prática do dia a dia.
E por incrível que pareça, muitas vezes tem alguém que acha o rumo.

Marcus Aurelius disse...

Bom, minha graduação não foi na UFRGS, mas também sinto isso.

A área com mais furos no meu conhecimento acho que é redes. Inúmeras vezes me deparei com uma "man page" (ou no manual de um roteador mesmo) e exclamei para mim mesmo: "Ah, então é aqui/assim que se configura aquilo que só vi abstratamente na aula!".