quinta-feira, 7 de julho de 2011

Segundas intenções

Um amigo, passeando por Portugal, achou-se perdido e resolveu pedir ajuda a um paisano. Com a obtusidade típica dos brasileiros, disse "Eu queria ir a Braga". Luso-descendentes, como eu, logo compreendem o erro do pobre tupiniquim e não têm muita dificuldade para imaginar a resposta: "Pois vá".

Essa forma direta de dialogar dos portugueses gera uma infinitude de piadas no Brasil, muitas das quais são baseadas em fatos. Creio que seja uma injustiça e que engraçados sejamos nós, os brasileiros. Nossa forma indireta de perguntar e responder gera muitas confusões. Já que as pessoas perguntam por segunda intenção, os interrogados passam a interpretar os questionamentos e daí só podem surgir dificuldades.

Há pouco tempo, pedi a um pintor que pintasse uma parede em azul até 123cm e em azul celeste dali até o teto. A ordem não podia ser mais clara. No entanto, ele deu-se ao trabalho de interpretar a minha ordem, já que sabia que eu queria colocar uma faixa ornamentada com bichinhos para meu filho. Ele colocou a faixa com a base em 123cm, quando a metade dela deveria estar nessa altura. Se o pintor fosse português, tenho certeza que minha ordem, mais que clara, não seria (mal) interpretada.

Noutro incidente recente, atendi uma ligação para uma colega. A pessoa que chamou disse "Fulano, a Beltrana...". Fiquei suspenso por uns segundos esperando um verbo. A Beltrana morreu? A Beltrana esqueceu de vir para a reunião? A Beltrana está? A Beltrana pediu para avisar que vai chegar tarde? A Beltrana pediu alguma coisa? Enquanto o analisador sintático esperava pelo complemento, o subsistema de previsão de intenções lançou um aviso: essa criatura provavelmente quer falar com a Beltrana. Encaminhei a ligação e torci pelo melhor.

Imagino o horror se os programadores brasileiros levassem essa filosofia para seu código. Por exemplo, um método para indicar se há fundos necessários para efetuar uma retirada poderia ser escrito da seguinte forma:


public Status podeRetirar(double valor) throws FundosInsuficientesException {
  if(saldo-valor<0) {
    throw new FundosInsuficientesException();
  }
  return getStatus();
}

Ou seja, o método, se houver fundos, retorna o status da conta (encerrada ou bloqueada, por exemplo), mas se não houver fundos, lança uma exceção para indicá-lo. Não dá para complicar mais uma coisa tão simples.

Outro defeito grave da comunicação tupiniquim é a falta de cortesia básica. É comum caminhar pela rua e ser surpreendido com um "Que horas são?" ou "Onde fica a rua da Ladeira?". Faltam "Bom dia", "Por favor" e "Com licença", cujos propósitos, antes de mais nada, são os de permitir ao cidadão mudar de contexto e preparar-se para iniciar um diálogo.

Se o TCP/IP tivesse sido projetado por um brasileiro, não haveria o handshake (SYN, SYN-ACK, ACK), mas surgiria a necessidade de uma mensagem HEIN, para quando o servidor não estiver preparado para iniciar uma conexão.

Os mal-entendidos cotidianos devem custar um bocado ao Brasil, então é de se espantar que os personagens principais das piadas ainda sejam o Manoel e o Joaquim.

4 comentários:

Flávio disse...

Também é por falta de cortesia básica que os brasileiros acham que todos os franceses são estúpidos com os turistas.

Marcus Aurelius disse...

Em japonês, o padrão e esperado de todos, é fazer perguntas indiretas.

Numa dessas, acho até que já vi algo parecido em algum curso com frases traduzidas lado-a-lado, por exemplo:

Em pt/en: «Com licença, como faço para ir a Shinjuku?»

Em ja: «Com licença, eu gostaria de ir a Shinjuku...» (Sumimasen, Shinjuku e ikitai n desu ga...)


Brasileiro não usa cortesia básica? Talvez na rua, porque no MSN já me deu vontade de gritar um «QUE-TU-QUÉ?» depois de 5 minutos de “conversa de elevador” até a criatura chegar no ponto principal... :-S

Ane Callegaro disse...

Muito bom o teu texto. O brasileiro, a meu ver, é mal-educado quando o anonimato lhe acoberta, ou seja, com pessoas que não conhece. Dias atrás, fui surpreendida por 2 motoristas que buzinaram por eu parar na faixa para uma pedestre (que já estava atravessando), concluir sua travessia. Agora, quando a pessoa é sua amiga, aí o tratamento muda completamente e ele faz mil rodeios pra chegar no ponto.

Ane Callegaro disse...

Muito bom texto! Tenho a impressão que brasileiro é mal-educado quando o anonimato lhe acoberta. Dia desses, 2 motoristas buzinaram porque parei o carro para uma senhora atravessar a faixa de segurança. O tratamento mudou completamente quando um deles percebeu que me conhecia.