quarta-feira, 2 de março de 2011

Trânsito gaúcho

O problema do trânsito no Rio Grande do Sul lançou-se na mídia mundial da pior forma possível. Um cidadão sem qualquer senso de civilidade, sem empatia e simplesmente carente de bom senso atropelou um grupo de ciclistas na cidade baixa.

O estado, com apenas 38 habitantes/km2, tem uma densidade populacional baixa. No entanto, a mesorregião metropolitana tem mais de 5 milhões dos 10.695.532 de gaúchos. Sua densidade é de 173/km2. Já a região metropolitana tem quase 4 milhões desses 5 milhões e uma densidade de 394/km2. Finalmente, a cidade de Porto Alegre tem 1,4 milhão e uma densidade de 2.815/km2.

Considerando que há, em média, 1,6 pessoas em cada automóvel transitando pelo cidade, é fácil ver como seria impossível adotar o carro como solução universal.  Em São Paulo, a taxa média de ocupação de veículo é inferior a 1,5.

A concentração urbana deveria ser encarada como uma oportunidade, mas o transporte de massa foi ultrapassado pelo automóvel. Os carros fazem o centro de Porto Alegre parar nos horários de pico. Parece óbvio que o carro não é solução, mas as autoridades preferem dar cada vez mais espaço justamente para quem gera o problema.

A infraestrutura viária é paga com o dinheiro de todos os cidadãos, mas apropriada em grande parte pelos condutores de automóveis que, de maneira crescente, estão tornando-se intolerantes com outras formas de transporte. Até mesmo os ônibus são vistos como problema, uma vez que têm faixas exclusivas em algumas avenidas.

É estranho este comportamento dos nossos motoristas, porque o transporte alternativo seria vantajoso para quem continuar sobre quatro rodas. Os engarrafamentos são provocadas por automóveis, não por bicicletas. É um egoísmo cego. Levanta-se até a bandeira do direito de ir e vir, como se houvesse o direito de ir e vir de carro. Dirigir um automóvel é um privilégio que a sociedade outorga a quem ela julga capaz (obviamente, a sociedade tem sido muito leniente).

Tendo presenciado a civilidade do motorista europeu e como ele compartilha o espaço urbano com multidões de bicicletas, não posso compreender por que muitos motoristas gaúchos tenham tanta dificuldade em admitir que seja possível conviver com outros meios de transporte. Não são os carros que são perigosos para os ciclistas, é a forma de agir dos motoristas que coloca os mais fracos em perigo.

Dada a falta de transporte de massa (como um metrô efetivo), o centro de Porto Alegre deveria dar oportunidade a formas alternativas de locomoção e diminuir o incentivo para o carro. Veículos grandes, como caminhões, deveriam ser proíbidos, assim como acontece em muitas cidades européias. Carros com apenas o motorista dentro deveriam ser impedidos de entrar no centro. Um pedágio urbano e menos vagas de estacionamento também poderiam diminuir o incentivo do motorista solitário.

O terrível atropelamento dos ciclistas é um momento crítico. Agora, a sociedade pode escolher se continua no atual caminho, ou se decide que quer realmente resolver os problemas urbanos e melhorar a qualidade de vida da capital.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sopa celular

O primeiro autômato celular que conheci foi o Hodge-podge. Ele tem as seguintes regras:
  1. Cada célula tem N estados (0 a N-1);
  2. O próximo estado de cada célula é dado pela média dos estados dos vizinhos mais uma constante k;
  3. Quando uma célula chega ao estado N-1, ela volta a zero no próximo passo.
Em geral, inicia-se com ruído e observa-se a ordem que surge. Decidi experimentar com fotografias e, como cada ponto tem três valores (um para cada cor), aproveitei para descobrir que influência isso teria na imagens geradas.

Então, cada célula (ponto da imagem) tem três valores que podem variar de 0 a 255 (256 estados, portanto). No meu experimento, a célula 0 é vizinha da célula 511 (a imagem tem 512 x 512 pontos) tanto no eixo horizontal, como no eixo vertical.

Para não quebrar a tradição, usei a Lena como modelo:

O código foi escrito em Javascript. Inicialmente, testei 27 para a constante k.

Depois, experimentei um k diferente para cada componente da cor: 27 para o vermelho; 37 para o verde; 14 para o azul.

A próxima imagem foi gerada com k=33 igual para os três componentes.

Os desenhos evoluem com o tempo e quanto maior o valor de k, mais rápidas são as transformações.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Se o Brasil...

Se o Brasil tivesse a densidade populacional da Itália, teria 1.707.415.311 habitantes (um terço a mais que a China). Mas se tivesse a densidade populacional da Mongólia, teria apenas 14.898.850 (um pouco mais que a cidade de São Paulo).

Se o Brasil tivesse a renda per capita de Portugal (US$22.027), seria a quarta maior economia do mundo com cerca de US$4,2 trilhões (atrás dos EUA, da China e do Japão, mas à frente da Índia).

Se o Brasil, em relação a sua população, tivesse tantos servidores públicos quantos tem o Reino Unido, teria 18 milhões. Os britânicos têm 6 milhões de trabalhadores no setor público (para uma população de 62 milhões), enquanto o Brasil tem 8 milhões (nas três esferas) para 190 milhões de habitantes.

Se o Brasil, em relação a sua população, tivesse tantos estados quantos têm os alemães, teríamos 37 (eles têm 16, nós temos 27). Se tivéssemos tantos municípios quantos distritos os alemães têm, teríamos 1.150 (eles têm 493 distritos e nós temos 5.564 municípios). Em média, os municípios do Brasil têm 34 mil habitantes, enquanto cada distrito alemão tem 186 mil. O excesso de burocracia no Brasil está concentrado na esfera municipal.

Se o salário mínimo do Brasil, em relação ao seu PIB per capita, fosse igual ao dos Estêites, ele valeria cerca de R$334. Lá, o salário mínimo federal é de US$7,25 por hora, enquanto aqui pagam-se cerca de R$3 por hora.

Se as regiões brasileiras tivessem que manter a relação entre seus salários mínimos e seus PIBs per capita conforme o salário mínimo federal (R$545 sobre R$14.700), no nordeste (a região mais pobre) ele seria de R$250, enquanto no sudeste (a região mais rica) ele seria de R$714.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Absenteísmo

É engraçado como essas pessoas que abordam na rua para evangelizar não deixam em paz quem responde ser ateu. Quem disser que é Judeu ou Budista pode seguir seu caminho tranquilamente, mas, se for ateu, vai ter que ouvir a mensagem até o fim.

Eu conheci um sujeito particularmente perturbado que ia até a parada de ônibus e gritava que "o anjo negro está vindo". Talvez o anjo negro fosse um motorista daquela linha e nunca descobri se isso era bom ou ruim.

Pois bem, ateus costumam ser bastante convictos de sua escolha, ao contrário dos religiosos em geral. Conheço muitos católicos que frequentam centros espíritas ou casas de umbanda. Ateus também gostam muito de discutir suas crenças, enquanto pessoas religiosas costumam ficar ofendidas.

No entanto, discutir religião (ou falta dela) com profetas de esquina não é lá muito divertido. Portanto, a melhor opção é apenas indicar uma religião e evitar confrontos. A minha opção é o Absenteísmo.

Em poucas palavras, o Absenteísmo prega que Deus existe, mas que não está. Não temos sequer certeza sobre se Ele sobreviveu à criação. Pode ser que Ele tenha morrido no Big Bang. Pode ser que a mãe d'Ele o tenha colocado de castigo por ter bagunçado a cozinha. De uma forma ou outra, Ele não está aqui ou nas redondezas. Se estivesse, certamente daria sinais claros de sua presença e teria uma conta no Facebook, pelo menos.

Criei uma divisão sectária como forma de dar mais veracidade à crença. Os absenteístas cômicos formam um grupo fudamentalista que alega que Deus não aguentou a falta de humor da humanidade e foi embora. Enquanto as pessoas gastarem seu tempo em atividades sérias, como ir ao culto ou participar de romarias, Ele não voltará. Levantar a questão da óbvia falta de esportividade de Deus neste ponto causa grande estresse (que eles insistem não constituir mau humor) aos seguidores dessa linha. Assim como noutras religiões, os absenteístas fundamentalistas não percebem as contradições em seus dogmas.

Seja qual for a linha do absenteísta, ele não é compelido a comparecer a nenhum culto (quem vai ouvir as preces??). A corrente fundamentalista, porém, sugere ler Douglas Adams e assistir The Big Bang Theory ao menos uma vez por semana por se Ele resolver dar uma incerta.

Os absenteístas devem pagar o Písimo que, obviamente, é 3,141592% do rendimento anual do fiel (os valores podem ser creditados na minha conta do PayPal). Gastos com educação e diversão podem ser deduzidos. A beleza do Písimo é que a precisão pode ser aumentada para acomodar os fiéis muito ricos ou que ganham salário em dólares do Zimbábue.

O Absenteísmo vem com uma licença GPL. Logo, qualquer um pode criar sua crença derivada. Já antevejo que alguém vai lançar o Absenteísmo Orientado a Objetos, por exemplo. No entanto, reservo-me todos os direitos sobre adesivos de para-choques.

Eu não mantenho registro dos fiéis, mas tenho notícias de que no Congresso Nacional a bancada absenteísta já é bastante numerosa.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Estilos de gerência

Já li bastante sobre gerência (de pessoas, de projetos, etc) e gostaria de dar minha contribuição para a taxonomia de estilos gerenciais.

Vou apresentar dois: britânico e tupiniquim. Os nomes têm origem nas histórias (breves) que relatarei a seguir e não significam que uma empresa britânica não possa ter um estilo tupiniquim de gerência ou vice-versa. As duas histórias são da segunda grande guerra e são verdadeiras.

A primeira é a de dois canadenses no dia D. Eles desembarcaram na praia de Juno. Os nomes franceses da localidade são Courseulles-sur-Mer, Saint-Aubin-sur-Mer e Bernières-sur-Mer. É muito biquinho para fazer no meio de uma batalha, então os anglo-saxões as renomearam por praticidade.

Logo ao desembarcar, Jim levou um tiro que atravessou seu torso logo acima da cintura. Por sorte, a bala não acertou nada importante. Seu colega Kenny, logo adiante, levou um tiro na perna, também sem maiores conseqüências. Mas a situação não estava nada boa e outros soldados estavam morrendo ao redor de Kenny e Jim.

Um pouco mais à frente, Kenny gritou para que Jim andasse mais depressa. Logo a seguir, Jim levou um tiro que quebrou sua perna. Ambos feridos, os dois procuraram abrigo.

Após esperar um bom tempo e serem atendidos por um médico, mas ainda no calor da batalha, surgiram dois soldados ingleses com cinco galões de chá (misturado meio-a-meio com rum). Sim, os ingleses não esquecem do chá nem quando estão lutando contra os nazistas.

A segunda história é sucinta. A FEB foi à Itália sem um batalhão de sepultamento. Sim, um soldado brasileiro morto teria que enterrar-se a si próprio se quisesse ir com dignidade.

Então, as duas escolas são a britânica, na qual as pessoas são importantes e a tupiniquim, na qual são dispensáveis. Em geral, os gerentes terão muitas desculpas por adotar o estilo tupiniquim (a sinceridade não é bem-vista no mundo corporativo), mas a verdade é que não custa muito propiciar um ambiente agradável para trabalhar: ar condicionado, uma cadeira confortável e café (ou chá) bastam.

Já trabalhei numa empresa com certificação CMM (que é muito cara), mas que não limpava os filtros do ar-condicionado (que são baratos). Certa vez, ao entrar no banheiro, descobri que o fundador da empresa não puxava a descarga. Pode ser que ele tenha muito orgulho de seus feitos, mas é mais provável que ele simplesmente não tenha nenhuma consideração pelos outros.

Eu recomendo trabalhar em empresas da escola britânica, mas se algum espartano realmente preferir a escola tupiniquim, eu sugiro que ao menos leve uma pá.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Janela para a alma

Meu nick é forinti e eu uso Windows. Estou sóbrio há um mês.

Eu comecei na adolescência, por pressão dos mais velhos. Comecei de leve com DOS. Eu nem curtia aqueles monitores de fósforo verde, mas todo mundo achava que os PCs é que eram máquinas para pessoas descoladas. As outras máquinas só serviam para joguinhos de criança.

Eu resisti muito a usar o Windows 3.11. Meu 286 nem mouse tinha e eu podia seguir dando meus tecos com Turbo C e Turbo Pascal. Mas quando chegou o Windows 95, não teve mais jeito.

Fui levando até o 2000. Eu não queria gastar mais dinheiro com o XP. E depois o Vista. E depois o 7. Não tem fim! Eles te pegam com um DOS inocente e quando a gente menos espera, não consegue fazer nada sem a próxima versão. E cada vez fica mais caro manter o hábito.

Eu agora faço tratamento com Ubuntu. Ele reconheceu minha rede wireless antes que eu percebesse e até com minha impressora multifuncional ele conversa.

Os dias bons são quando o meu cunhado vem visitar e pede para usar o micro. Ele não conseguiu largar o vício. Agora ele não consegue infectar minha casa com porcarias que ele encontra nos sítios da vida. Me orgulho de agora poder proteger minha família.

Os dias ruins são quando tem conta para pagar e tenho que sair para procurar um caixa automático. Dá uma vontade danada de instalar um Windowzinho. Tenho que ser forte e pensar nos meus filhos.

É difícil, porque tem muita tentação. Os bancos não me deixam entrar sem Internet Explorer. Um banco usa OS/2 nos caixas automáticos; outro usa Linux. Os dois, mesmo assim, querem me fazer usar o Internet Explorer para poder ver minha grana desde meu micro. No trabalho ainda tenho que usar o XP, mas eu abro um putty para um servidor e isso me ajuda a manter a cabeça no lugar.

Meu querido Trackmania, eu não jogo mais, mas pelo menos eu tenho um futuro agora. Vou levando um dia por vez.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Explorações fractais VII

Potências de números complexos eram um problema até que descobri a fórmula de de Moivre. Acontece que é muito mais fácil calcular potências de números complexos usando coordenadas polares. Então, a solução é converter cada ponto para coordenadas polares, calcular a potência e voltar para as coordenadas originais.

O código que segue mostra minha implementação.


var POWER=2.666;
var NEGATIVE=false;

function mandel(x,y) {
var c=1;
var r=0;
var i=0;
var MAXITER=512;
while(r*r+i*i<4 && c<MAXITER) {
var t=POWER*Math.atan2(i,r);
var d=Math.pow(Math.sqrt(r*r+i*i),POWER);
var nr=d*Math.cos(t)+x;
var ni=d*Math.sin(t)+y;
if(NEGATIVE) {
r=nr/(nr*nr+ni*ni);
i=-ni/(nr*nr+ni*ni);
} else {
r=nr;
i=ni;
}
c+=1;
}
return c;
}

Deixei a função mandel() pronta para receber potências negativas e positivas: basta alterar o valores de POWER e NEGATIVE.

Experimentei com -3,7 e o resultado se parece com lâminas de patologia.



Depois, tentei 2,666 e descobri que essa potência também gera detalhes com aparência orgânica.