Após assistir a várias entrevistas com Karen Hao, resolvi comprar seu livro.
A omnipresença da IA em foros de TI e a pressão de forças de fora da TI para que soluções sejam adotadas antes mesmo que problemas sejam identificados somaram-se aos aumentos absurdos dos preços de componentes (memórias,GPUs, SSDs) e acabaram por alimentar uma tremenda má vontade em mim.
A IA certamente será uma tecnologia útil em alguns ramos e em alguma medida, embora não creia que seja a panaceia que está sendo vendida; com certeza será mais útil que as criptomoedas.
Dada a crise climática, o modelo de negócio que está sendo vendido certamente não é o melhor. Ultimamente, tenho a impressão que qualquer coisa está sendo usada para evitar ter que atacar os problemas do planeta. O formato atual do capitalismo (ou economia de mercado, se preferir), não é capaz de evitar o apocalipse ecológico que estamos preparando há décadas.
Este é o tema principal do livro: os maiores proponentes da IA agem como imperialistas, enquanto vendem ora a solução para todos os problemas, ora um futuro distópico. O comportamento errático mal disfaça o fato de que ainda não encontraram um modelo de negócios que resolva a grande dívida que estão acumulando.
O livro é longo: mais de 400 páginas. Boa parte dele relata os atritos internos e as intrigas entre os maiores personagens da IA. Além disso, há relatos interessantes sobre os problemas gerados pelas maiores empresas: consumo de recursos e abusos de trabalhadores em países periféricos.
As últimas páginas relatam o caso de uma organização neozelandesa que usou a IA para documentar e criar materiais de ensino da língua dos Maoris. Essa organização responsavelmente e respeitosamente: escutou a comunidade; trabalhou em conjunto com a comunidade; e usou recursos com economia (apenas duas GPUs). Mesmo assim, os resultados foram muito bons.
A filósofa Carissa Véliz argumenta que a maneira como as tecnologias são criadas importa, porque a intenção acaba ditando os resultados. Essas empresas vendem a noção de que a IA curará doenças e solucionará a solidão, mas, ao mesmo tempo, agem para controlar recursos e aproveitam-se de trabalhadores vulneráveis, assim como os Impérios doutrora.
As grandes empresas de tecnologia vendem as soluções de nuvem como se fossem benéficas aos usuários. Em alguma medida, elas realmente o são, mas a intenção verdadeira é estabelecer um feudo e dele extrair uma renda vitalícia. Aos poucos, isso vai se revelando: versões novas que só funcionam na nuvem, custos altos de tráfego de dados, licenças que subitamente mudam os termos, etc.
Em meu trabalho diário, vejo a IA sendo vendida como a solução para domar a complexidade burocrática, quando seria muito mais inteligente racionalizar a burocracia. Documentos são gerados no Word, impressos, assinados, escaneados como imagens, e então processados por IA. Documentos são gerados por IA e depois resumidos por IA. E isso me leva a pensar: se um documento é gerado por uma IA apenas para ser interpretado por outra IA, ele realmente precisa existir?
Eu achei o livro um pouco longo demais, mas ainda assim achei que foi uma leitura interessante, embora os comportamentos de alguns bilionários sejam bastante revoltantes. Felizmente, o livro encerra com histórias positivas de projetos mais humanos; são essas histórias que eu gostaria de ver nos meios de comunicação.

