domingo, 16 de agosto de 2026

Leitura: O Império da IA

Após assistir a várias entrevistas com Karen Hao, resolvi comprar seu livro.

A omnipresença da IA em foros de TI e a pressão de forças de fora da TI para que soluções sejam adotadas antes mesmo que problemas sejam identificados somaram-se aos aumentos absurdos dos preços de componentes (memórias, GPUs, SSDs) e acabaram por alimentar uma tremenda má vontade em mim.

A IA certamente será uma tecnologia útil em alguns ramos e em alguma medida, embora não creia que seja a panaceia que está sendo vendida; com certeza será mais útil que as criptomoedas.

Dada a crise climática, o modelo de negócio que está sendo vendido certamente não é o melhor. Ultimamente, tenho a impressão que qualquer coisa está sendo usada para evitar ter que atacar os problemas do planeta. O formato atual do capitalismo (ou economia de mercado, se preferir) não é capaz de evitar o apocalipse ecológico que estamos preparando há décadas.

Este é o tema principal do livro: os maiores proponentes da IA agem como imperialistas, enquanto vendem ora a solução para todos os problemas, ora um futuro distópico. O comportamento errático mal disfaça o fato de que ainda não encontraram um modelo de negócios que resolva a grande dívida que estão acumulando.

O livro é longo: mais de 400 páginas. Boa parte dele relata os atritos internos e as intrigas entre os maiores personagens da IA. Além disso, há relatos interessantes sobre os problemas gerados pelas maiores empresas: consumo de recursos naturais, poluição, e abusos de trabalhadores em países periféricos.

As últimas páginas relatam o caso de uma organização neozelandesa que usou a IA para documentar e criar materiais de ensino da língua dos Maoris. Essa organização responsavelmente e respeitosamente: escutou a comunidade; trabalhou em conjunto com a comunidade; e usou recursos com economia (apenas duas GPUs). Mesmo assim, os resultados foram muito bons.

A filósofa Carissa Véliz argumenta que a maneira como as tecnologias são criadas importa, porque a intenção acaba ditando os resultados. Essas empresas vendem a noção de que a IA curará doenças e solucionará a solidão, mas, ao mesmo tempo, agem para controlar recursos e aproveitam-se de trabalhadores vulneráveis, assim como os impérios doutrora.

As grandes empresas de tecnologia vendem as soluções de nuvem como se fossem benéficas aos usuários. Em alguma medida, elas realmente o são, mas a intenção verdadeira é estabelecer um feudo e dele extrair uma renda vitalícia. Aos poucos, isso vai se revelando: versões novas que só funcionam na nuvem, custos altos de tráfego de dados, licenças que subitamente mudam os termos, etc.

Em meu trabalho diário, vejo a IA sendo vendida como a solução para domar a complexidade burocrática, quando seria muito mais inteligente racionalizar a burocracia. Documentos são gerados no Word, impressos, assinados, escaneados como imagens, e então processados por IA. Documentos são gerados por IA e depois resumidos por IA. E isso me leva a pensar: se um documento é gerado por uma IA apenas para ser interpretado por outra IA, ele realmente precisa existir?

Eu achei o livro um pouco longo demais, mas ainda assim achei que foi uma leitura interessante (embora os comportamentos de alguns bilionários sejam bastante revoltantes). Felizmente, o livro encerra com histórias positivas de projetos mais humanos; são essas histórias que eu gostaria de ver nos meios de comunicação. Assim como as grandes empresas querem ditar o futuro via a IA, a mídia, em geral, apenas repassa os sonhos de dominação global de uns poucos bilionários. Temos que prestar atenção ao homem que está atrás da cortina.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Combinações de Quartas de Final

O recente sorteio das quartas de final da Copa do Brasil levantou suspeitas por juntar os clubes por proximidade.

Há 105 possíveis quartas de final (8!/(2!*2!*2!*2!*4!)), mas é mais divertido calcular na linha de comando com grep.

Primeiro, uso o código de combinações para calcular todos os enfrentamentos possíveis (são 28):



my @jogos=qw(AB AC BC AD BD CD AE BE CE DE AF BF CF DF EF AG 
             BG CG DG EG FG AH BH CH DH EH FH GH AB AC BC AD);
             

Depois, uso o mesmo código para encontrar todas as combinações de enfrentamentos, mas uso o grep para eliminar as combinações em que um time aparece mais de uma vez:



perl choose.pl  |  grep -Ev '(\S)(.*\1)'
DE CF BG AH 
CE DF BG AH 
CD EF BG AH 
DE BF CG AH 
BE DF CG AH 
BD EF CG AH 
...

A expressão -E "(\S)(.*\1)" procura por coisas diferentes de espaço que sejam repetidas ao menos uma vez e -v as elimina do resultado.

O resultado são 105 combinações de quartas de final e a combinação específica aparece apenas uma vez (claro):


perl choose.pl  |  grep -Ev '(\S)(.*\1)'  | grep "AB CD EF GH"
AB CD EF GH 

Dada a quantidade absurda de jogos a que os jogadores são submetidos no Brasil, organizar os campeonatos por proximidade, a fim de minimizar as viagens, seria uma medida interessante.