segunda-feira, 23 de março de 2026

Ética na TI

Uma cadeira com potencial desperdiçado na faculdade foi "Computador e Sociedade". Eu não dei muita importância e o professor tampouco.

Naqueles tempos, as questões éticas e morais pareciam muito distantes da informática. Estávamos, assim como continuamos, muito enamorados dos brinquedinhos novos que são lançados todos os anos.

A informática mal começava a invadir os lares e nem todos a usavam diretamente no trabalho. Hoje, andamos todos com computadores no bolsos. E esses computadores têm sensores, tiram fotos, sabem sua posição no mundo.

O reino da computação, entretanto, continua discutindo muito pouco as coisas que produz. Sim, algumas pessoas se preocupam com questões éticas, sociais, e até ecológicas, mas essas preocupações mal chegam ao público em geral.

Trabalhar para multinacionais como a Meta, o Google, a Oracle, e a Microslop Microsoft é o sonho de muitas pessoas. Não é justo culpá-las, porque as oportunidades podem ser muito boas.

Entretanto, como brasileiro, sinto que o país e os governos de todos os níveis não se preocupam de forma alguma com a quantidade de dinheiro que é despendido e muito menos com a dependência tecnológica do Brasil com essas empresas estrangeiras. E não é por serem estrangeiras, é porque elas já deram muitas provas de que não são confiáveis. O estado brasileiro gasta com a educação de futuros funcionários de multinacionais e deixa de fomentar uma indústria nacional de TI.

Além disso, o mundo parece estar numa corrida desenfreada para enriquecer algumas poucas pessoas, enquanto não leva a sério os problemas sociais e ecológicos que estão se acumulando.

Há poucos anos, surgiram as criptomoedas que, ao fim e ao cabo, demonstraram servir de subsídio para o crime e como a plataforma perfeita para golpes financeiros. Mesmo após tantas demonstrações de que as criptomoedas não são tão úteis fora do crime, uma quantidade enorme de dinheiro continua sendo perdido e recursos naturais são desperdiçados com essa promessa de riquezas fáceis.

Como se o mundo não precisasse diminuir e racionalizar o consumo de energia e água, agora temos a IA para a qual estão sendo reservados mais datacenters do que há energia disponível para alimentá-los. Nos EUA, há locais em que a energia elétrica está mais cara para os consumidores porque o consumo dos datacenters cresceu demais. Em alguns locais, a escassa água disponível está sendo desviada para arrefecer computadores.

O capitalismo tardio está sempre nos oferecendo um futuro magnífico, mas agora ele está tornando o presente pior de forma muito clara. Metade da África não tem luz elétrica; a Etiópia precisou vender bônus para a própria população para arrecadar US$5 bi para uma hidrelétrica que vai fornecer energia a 60 milhões de pessoas. A bolha da IA já está na casa do trilhão de dólares.

E essa loucura toda não é discutida em ambientes de tecnologia. Os departamentos de TI estão correndo enlouquecidamente atrás de recursos e treinamentos para apazigar a ânsia por IA de seus clientes e usuários.

Recentemente, um advogado levantou uma questão fundamental: vamos usar LLMs para transformar 10 linhas de texto em documentos que depois serão novamente resumidos por LLM. Isto é, vamos criar uma solução magnífica para não resolver nenhum problema verdadeiro.

E não são essas questões o que mais me angustia, é a absoluta indiferença que observo no meu meio.

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